Cerca de 48 milhões de brasileiros trabalham na informalidade, sem o
reconhecimento de seu aprendizado, geralmente feito na prática, com familiares ou
colegas. Para modificar essa realidade, o governo brasileiro estuda a criação de um
sistema nacional de certificação profissional destinado a estimular a formação
continuada e ampliar o acesso ao mercado de trabalhadores que já atuam profissionalmente,
mas não tiveram a chance de estudar e conseguir um diploma.
Para o secretário de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, Eliezer Pacheco, essa
política vai saldar uma dívida histórica do país com desempregados e subempregados.
"A certificação é uma forma de criar as condições para que milhões de
brasileiros que não tiveram a oportunidade de se formar profissionalmente no ambiente
escolar tenham acesso ao mundo do trabalho e possam exercer legitimamente uma ocupação
ou profissão", disse.
A institucionalização do Sistema Nacional de Certificação Profissional (SNCP) deve
contribuir para a elevação da escolaridade e melhoria da formação profissional dos
trabalhadores. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está empenhando na
implementação de políticas que contemplem os segmentos historicamente excluídos da
distribuição dos recursos públicos. No âmbito do governo federal, Programas como o
Proeja (Programa de Integração da Educação Profissional Técnica de Nível Médio ao
Ensino Médio para Jovens e Adultos) e o ProJovem (Programa Nacional de Inclusão de
Jovens), para formação de jovens e adultos, e a Escola de Fábrica, de capacitação de
trabalhadores dentro das empresas, têm esse foco.
O sistema de certificação profissional foi tema de seminário internacional, realizado
em Brasília, de 7 a 9 deste mês, com a participação de especialistas do Brasil, da
Europa e das Américas.
A proposta dos ministérios da Educação, do Trabalho e Emprego, do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, da Saúde e do Turismo está próxima de se transformar
em realidade. Depende somente de um decreto ou de uma medida provisória para entrar em
vigor. Serão beneficiados eletricistas, encanadores, mecânicos, padeiros, pedreiros,
soldadores e vários outros operários que aprenderam as técnicas de trabalho no
dia-a-dia.
Teste - Segundo o secretário de Políticas Públicas de Emprego do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Remígio Todeschini, o processo será simples. O
trabalhador fará uma prova prática para mostrar que está habilitado e receberá um
certificado. Caso não domine todas as técnicas necessárias, será encaminhado a um
curso profissional, público ou privado. O trabalhador fará a certificação e depois
poderá entrar, caso queira, no ensino regular e completar a escolaridade.
O coordenador-geral de Certificação e Orientação Profissional do MTE, Marcelo Álvares
de Sousa, explica que as profissões que terão direito ao certificado fazem parte de uma
lista de mais de 2.750 tipos de trabalho diferentes. Ele conta que a França tem um
sistema avançado e a Espanha está construindo um semelhante.
O diretor-geral do Centro de Iniciativas e Investigações Profissionais da Europa e
Mediterrâneo, Oriol Homs, explica que na Espanha o objetivo é capacitar os profissionais
que estão no mercado de trabalho há muitos anos e correm risco de desemprego por falta
de atualização. "O desafio é atualizar o conhecimento", disse. "Cinco
anos depois de um universitário sair da sala de aula, ele já precisa de novas
técnicas."
Reconhecimento - Na
França, há dois anos, o governo decidiu certificar as qualificações e os conhecimentos
dos trabalhadores sem formação profissional formal. Segundo o representante do
Ministério do Trabalho da França no seminário, Thomas Coutrot, lá foi desenvolvido um
sistema de reconhecimento da experiência no mercado de trabalho que dá acesso a quase
todos os diplomas do sistema escolar profissional. "O sistema permite a qualquer
trabalhador postular o reconhecimento formal de sua qualificação por meio de um exame,
que pode ser um teste no local de trabalho, um portfólio de êxito profissional ou mais
teórico", explicou.